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Sábado, Novembro 21, 2009

A pergunta é: seria Dee Dee Ramone o verdadeiro pai do punk? Depois de ler ao livro “Coração Envenenado, minha vida com os Ramones”, da autora americana Verônica Kofman, conclui que sim, seria ele, se não o pai, um dos maiores colaboradores. Mais que uma biografia desse grande maisntrain do punk, o livro mostra uma história de vida que poucos conheciam.
Dee Dee transpirava histórias eletrizantes, tanto que com certeza fez a diferença ao movimento punk dos anos 70, muitas delas inclusive retratadas em suas composições de grande sucesso, como: “Wart hog” , “53rd and 3rd”, “Now I Wanna Sniff Some Glue” , “Walk On The Wild Side”, entre outras.
Amigo de alguns nomes não menos importantes do punk, como Sid Vicious, Dee Dee conta como foi sua vida do fracasso ao sucesso e fracasso novamente e até muda a história sobre o assassinato da namorada de Vicious, ocorrido em outubro de 1978, Sid era acusado de tê-la matado.
A insanidade de Dee Dee já vinha de berço: nasceu em uma família não muito normal, com uma mãe “bêbada louca”, como ele próprio descreve, e um pai “bêbado, fraco e egoísta”, ao qual ele afirma ter puxado um pouco. Isso dá uma leve noção de por quê o resto da sua vida foi tão complicada. Mas devemos ser grato a sua descontrolada mãe por ter mostrado o caminho da música a esse mestre do punk.
Seu contato com drogas e álcool foi assustadoramente precoce. Assustadoramente porque no juízo de qualquer pessoa isso não seria normal!
Cada capítulo nos leva a entrar na vida desse ex-Ramone como se estivéssemos presentes em cada fato e história inusitada que passou. As histórias chegam a ser bizarras e inverossímeis. Drogas, overdoses seguidas, namoradas loucas e depravadas, ambiente sujo, são só o começo. Ele considerava ter uma vida sem graça, mas acredite não chega nem perto de ter sido. Sua luta contra o vício das drogas foi constante, mas acabou sendo vencido: morreu por overdose em 15 de Abril de 2001.
Relatos de amor e ódio na sua participação no Ramones vão definitivamente fazer você ter uma outra perspectiva sobre a maior banda e sua influência no estilo. Ele define o grupo: ”Quem entra numa banda como o Ramones não vem de um passado estável, porque essa não é uma forma de arte muito civilizada. O punk rock é feito por garotos furiosos querendo ser criativos”.
A leitura é de forma agradável, embora a grande quantidade de palavras chulas usadas por ele chegam a ser chocante. O livro parece não ter deixado nada de lado, dando mais luz á obscura vida de Dee Dee. Para quem gosta de impacto e realidade não pode passar longe dessa biografia, que se poderia definir como inigualável e necessária para entender música e, principalmente, entender o que se passa na cabeça de um compositor de alto nível como foi Dee Dee Ramone.
Fica aqui um trecho do livro para somente atiçar a vontade do leitor: “Havia vômito por toda parte. “’Que coisa nojenta’, pensei. Sid e eu imediatamente vomitamos também. Mas eu ainda não tinha visto nada. Sid tirou do bolso uma seringa horrível com sangue endurecido na agulha. Dei a ele um pouco de speed e ele botou na seringa. Aí colocou a seringa na privada e puxou água para dissolver o speed a frio. A água estava cheia de vômito, mijo e ranho. Sid parecia não ver absolutamente nada de anormal naquilo. Parece que sua principal preocupação era se injetar e que estava disposto a agüentar qualquer merda por aquele pico. ‘Agora já vi de tudo’, pensei”. (Trecho de Coração envenenado, minha vida com os Ramones, p 82.)

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

The Durutti Column – Love in the Time of Recession (2009)

14/06/2009 por luciano

Vini Reilly mantêm-se prolífico como nunca, lançando um álbum (às vezes dois) por ano, e apresentando agora o seu “Love in the Time of Recession”, Inspirado pelo título do romance “Amor em Tempo de Cólera”, do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez.

Aos que desconhecem a história desse pouco comentado guitarrista e filho menos famoso da tão falada cidade inglesa de Manchester, há que se fazer um percurso de volta ao final dos anos 70 e início dos 80; ao início da cultuada gravadora Factory, capitaneada pelo visionário Tony Wilson, falecido em 2007; e no caminho se deparar com outros nomes como Joy Divison, Simply Red, New Order, Morrissey, o produtor Martin Hannet, ou o clube Hacienda.

Passados quase trinta anos desde o primeiro álbum, “The Return of Durutti Column” (1980), criado em parceria com Hannet, aqui está Vini, esse guitarrista anoréxico, deprimido, que tem aversão a entrevistas, que não gosta de cantar, que afirma não gostar de seus álbuns, mas que extrai de sua guitarra, tocada de forma única, bonitas melodias envoltas numa espiral de melancolia.

“Todas as novas canções são uma verdadeira reflexão sobre minha vida”, declara o guitarrista sobre o novo álbum. Há homenagem ao amigo empresário Tony Wilson, na faixa de abertura “In Memory of Anthony”; ao percussionista e amigo de longa data Bruce Mitchel, em “For Bruce” e à namorada Poppy Morgan, em “My Poppy”. Inclusive ela co-escreveu diversas faixas do albume tocou piano, é uma das pessoas que aparecem na capa junto a Bruce Mitchell (percussão), Mark Broscombe, o próprio Vini Reilly, Tim Thomas (produtor), Keir Stewart (tecladista e produtor) e Laurie Laptop (produtor). “Sem a ajuda deles eu não teria sido capaz de levar adiante”, afirma Vini.

Comparado com alguns de seus trabalhos mais recentes, é um álbum com menos ênfase em elementos eletrônicos, principalmente os samples e loops, e tendência para os momentos intimistas, onde a guitarra e o piano dão a tônica das canções. É interessante a disposição de Vini para colocar sua voz em quase todas as onze canções (quatorze da versão japonesa), até mesmo em “More Rainbows”, uma faixa eminentemente instrumental, com um clima de ambient-music que dispensa vocais.

“I’m Alive” (com uma linha de baixo profunda) remete, por instantes, a momentos de “LC”, um dos melhores trabalhos de Vini, juntamente com “For Bruce” e “Paintings”, dois momentos de extrema fragilidade e beleza do álbum. Se tem uma direção para qual “Love in Times of Recession” aponta é para os primeiros trabalhos do DC, e isso aumenta a sensação de nostalgia, vide os dedilhados de “Lock-Down”.

Beleza, beleza em forma de música, é isso o que “Love in the Time of Recession” tem a oferecer, é isso o que sempre se espera de um álbum do Durutti Column. Vini não decepciona.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Discos pe(r)didos #30



















BEAT HAPPENING
Jamboree [K, 1988]

Quando comparado com a estreia homónima de 1985, um disco pioneiro do lo-fi e do chamado twee pop, o segundo álbum dos Beat Happening (BH) será visto como uma obra registada em alta-fidelidade. Produzido por Steve Fisk e elementos dos Screaming Trees (na altura uma banda a operar num espectro bem diferente daquele em que se tornaram conhecidos), Jamboree assinala o refinamento do conceito musical muito peculiar de Calvin Johnson, uma espécie de Jonathan Richman mais determinado. Operando a partir de Olympia, no noroeste dos Estados Unidos, Calvin era também o mentor da K Records, casa de acolhimento de uma série de projectos musicais de pop geeks apostados em cristalizar os desejos e as ânsias da adolescência. Kurt Cobain, confesso adepto da ingenuidade ao serviço da pop (não só dos BH, mas também de Daniel Johnston, dos Vaselines, dos Pastels, e dos Teenage Fanclub), era devoto ao ponto de tatuar o logotipo da K no braço.
"Bewitched", o tema que abre o disco, é guiado por uma malha circular de guitarra distorcida e desafinada. A batida é repetitiva e a voz errática de Calvin confessa desejos carnais. "In Between", cantado por Heather Lewis, o elemento feminino do trio que compreendia ainda Bret Lunsford, é exemplo acabado do melhor jangle pop. Mais à frente, "Drive Car Girl" segue idênticas premissas. O terceiro tema é "Indian Summer", simplesmente a pérola no repertório dos BH. Relata um piquenique num cemitério, tendo por protagonistas dois jovens amantes que sabem que este é o último encontro. A atmosfera, quase críptica, é criada por uma estranha combinação de referências a comida, sexo, e tragédia. Dean Wareham, que com os Luna gravou uma das muitas versões de que "Indian Summer" foi alvo, refere-se-lhe como 'o "Knocking On Heaven's Door" do indie'. "Hangman", "Crashing Through" e "Midnight A Go-Go" são temas balançados entre o surf rock e o punk pop. O tema-título é esplendor lo-fi, com a voz de Calvin, a discorrer sem pudor sobre as malandrices perpertadas por dois adolescentes fechados dentro de um armário, acompanhada por uma pandeireta tosca. Já "Ask Me", novamente na voz de Heather, é uma canção essencialmente a cappella. A forma falsamente ingénua como ela pergunta "Aren't you gonna ask me what I did today?" é de despertar a líbido de um moribundo. Nos acordes graves de "Cat Walk" recuperam-se memórias do primórdios do rock'n'roll na década de 1950. Para o final, "The This Many Boyfriends Club" é o paradigma da estética BH e verdadeiro teste ao ouvinte devoto. Gravado em registo live, apresenta um Calvin atonal a tecer juras de amor a uma rapariga supostamente pouco popular. Embora completamente desafinada, a voz denota a sinceridade que raramente encontramos em cantores mais dotados. Para além do ruído de fundo resultante das conversas da platéia, o acompanhamento consiste em sons avulsos sacados da seis cordas de uma guitarra - desafinada, obviamente.
Como se depreende do que atrás foi dito, e apesar da abordagem deliberadamente inocente, há toda uma pulsão erótica que emana de Jamboree. Gerard Cosloy, figura incontornável do panorama indie norte-americano que esteve ligado à fundação das editoras Homestead e Matador, vai ao ponto de o classificar nos seguintes termos: "the most sexually charged rock LP since some Bauhaus disc I forgot the name of(...)". E, tudo isto, em apenas 24 minutos... É obra!

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

The Replacements - Tim

Tu pode até não conhecer o Replacements, mas eu posso te garantir que eles foram uma das bandas mais importantes do cenário americano nos anos 80. Vindo de Minneapolis, o seleiro de outras boas bandas, em 1984 eles lançaram um dos grandes clássicos do rock alternativo pelo selo TwinTone, chamado de Let It Be, e melhor que fazer um clássico é fazer dois clássicos!
Let It Be chamou a atenção de quem estava ligado no assunto e viu aquela manda punk e mal acabada se aventurando em outros mares, misturando country, melodias e baladinhas, tudo com aquela estética DIY para não perder a pose.
Mas de que adianta lançar um baita discão se tu não tem nem dinheiro pra se.. alimentar? Não que eles estivesse passando fome, mas toda a grana de turnê, era usada para mais turnê, custo de gravações e conserto de instrumentos. A decisão foi conjunta banda/gravadora: é hora de passar pra uma major. Proposta já existiam, pelo interesse que surgiu no lançamento desse disco que já citei duas vezes o nome e o escolhido foi a Sire, subsidiária da Warner.
Nada mal, quem mandava na Sire era o sir Seymour Stein, que era manager dos Ramones e influente na nata musical nova iorquina, ele escalou nada mais, nada menos que Tommy Ramone para ser produtor do novo disco do Replacements, e aí nascia o segundo clássico do grupo, chamado simplesmente de Tim.
O resultado foi uma batalha de egos entre o líder Paul Westerberg, que acabou descobrindo em si mesmo um compositor facinante, e o guitarrista Bob Stinson, cada vez mais bêbado e drogado, só queria saber de tocar música alta e barulhenta. No fim, conseguiram dosar ambos lados no disco, com uma produção superior a todos os trabalhos anteriores, num disco rebelde e instrospectivo e um tanto quanto sincero.
Aquela banda juvenil agora tinha amadurecido, mostrando boa parte de uma influência que não era comum ver em jovens punks, de rock clássico, um pouco de Big Star, um pouco de Chuck Berry, um pouco de Bruce Springsteen e um pouco de Rolling Stones, além de Clash e Pistol, totalmente evidentes. Baladinhas para alguns momentos solitários em "Swingin' Party" e "Here Comes A Regular", que seria uma grande surpresa, caso não existisse Let It Be. "Hold My Life" abre o disco de maneira urgente ao estilo da banda, "Kiss Me On The Bus" é música adolescente apaixonado e a suja e apavorante "Dose Of Thunder", que foi a única música composta por todos.
Logo após o lançamento de Tim, Stinson (Bob) foi chutado do grupo, pois achavam que já não conseguia tocar ao vivo as músicas "menos rock" e estava muito bêbado para tentar.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Brian Eno - Ambient 1 Music For Airports
Ano: 1978
Gênero: Ambient/New Age
Tempo: 48:16
Gravadora: EG
Produzido por: Brian Eno.

O grande produtor musical dos famosos tempos psicodélicos do U2 também foi responsável, sozinho em seus projetos sonoros, a grandes trabalhos. Confesso que não conheço a capacidade criativa dele, que meu primeiro disco sobre o Eno é este que posto agora.

Como o título sugere são canções para aeroportos, quatro faixas relaxantes em que se alternam leves efeitos eletronicos com o dedilhado de Brian no piano, destaque para "1/1". Devem estar se perguntando o motivo de minha busca por ele, respondo que eu o vi naquela famosa lista dos 1001 discos que se deve ouvir antes de morrer; para quem está cansado de ouvir chiadeiras, esse é o álbum perfeito.

lista de "sinfonias":

1- 1/1
2- 1/2
3- 2/1
4- 2/2

não há asteriscos, descubram-no por inteiro!

Domingo, Agosto 16, 2009

THE DAY THE EARTH MET THE... ROCKET FROM THE TOMBS

No início dos anos 70, surgia uma nova banda de rock para traduzir em música todo o clima opressivo dos grandes centros urbanos. Caos, medo, paranóia e violência em aterradoras visões apocalípticas. Brothers and sisters, tirem as crianças e os cardíacos da sala, e aumentem bem o som - este é o Rocket From The Tombs.

"Aranhas negras explodem a artilharia anti-aérea pelo céu/alcançando com suas garras por todos os lados/Sem lugar para correr ou fugir/ sem fuga da corrida suicida".

30 Seconds Over Tokyo

O Rocket From The Tombs pode ser considerado o elo perdido entre o rock de garagem dos anos sessenta e a gênese de toda aquela movimentação contracultural que acontecia no underground nova-iorquino, que daria no punk rock. O grupo fazia uma música claramente apontada para o futuro. De importância histórica incontestável, o RFTT notabilizou-se também por ter sido o embrião de dois grupos fundamentais para o rock alternativo: Pere Ubu e Dead Boys.

Nossa história remonta ao longínquo ano de 1974, onde encontraremos um jovem crítico musical - e frontman de uma banda de rock imaginária - chamado David Thomas. David escrevia para algumas publicações sob pseudônimo de Crocus Behemoth, e vivia sonhando com esse grupo de rock "incendiário" que ele havia idealizado para espantar o tédio da chatíssima cidade de Cleveland. Quando conheceu o guitarrista Peter Laughner, David viu a chance de finalmente concretizar seu projeto de banda. Após convencer Laughner a embarcar nessa história, não demorou muito para que outros elementos sem muito que fazer da vida juntassem-se à dupla - o guitarrista Gene O' Connor (que mais tarde ficaria famoso como Cheetah Chrome, o agitado guitarrista dos Dead Boys), o baixista Craig Bell e o baterista John Madansky (o Johnny Blitz dos Dead Boys). Foi assim que surgiu o lendário Rocket From The Tombs.

Em junho de 1974, após alguns ensaios, o grupo começou a tocar nos poucos espaços que os admitiam, em Cleveland. Além de versões para temas alheios, o grupo também apresentava alguns números próprios. E era no material próprio que o bicho pegava e a banda mostrava sua força. Tanto que chamaram a atenção e ganharam o respeito do temível crítico musical Lester Bangs, que os ouviu a partir de um registro ao vivo em fita cassete com áudio de baixíssima qualidade.
Durante o curto período em que esteve em atividade (de maio de 1974 até agosto de 1975), o Rocket From The Tombs sofreu algumas pequenas mudanças em seu line up (Stiv Bators, dos Dead Boys, chegou a cantar no RFTT por um tempo, até ser mandado embora por Behemoth) e nunca chegou a gravar nada oficialmente. Os poucos (e raríssimos) registros de shows e ensaios que existiam permaneceram obscuros por muito tempo, e foram resgatados somente em 1990, quando saiu um LP em caráter semi-oficial e de tiragem limitada, intitulado "Life Stinks" - disco praticamente impossível de ser encontrado. Assim, a banda continuou no limbo por mais um bom tempo, dividindo espaço com outros tantos malditos de mesma linhagem como Destroy All Monsters, Electric Eels e Simply Saucers.

Em 2002, a história mudou um pouco de figura com o lançamento do CD "The Day The Earth Met The... Rocket From The Tombs", disco lançado pelo selo Smog Veil, e facilmente encontrado em lojas virtuais pela Internet. O material é uma maravilha! Reúne demos e gravações ao vivo realizadas no início de 1975. Estão lá, músicas que ficaram famosas e viraram clássicos no repertório dos Dead Boys (Sonic Reducer, Never Gonna Kill Myself Again, Down In Flames) e do Pere Ubu (30 Seconds Over Tokyo, Life Stinks), mais versões detonantes para duas canções dos Stooges (Raw Power e Search And Destroy). Pode-se dizer que este lançamento foi responsável por um novo culto em torno da banda, entre uma geração que sequer havia nascido quando o Rocket acabou, em 75.Mas a surpresa definitiva mesmo foi quando anunciaram que o grupo retornaria para gravar o álbum de estúdio que eles nunca realizaram. A formação já não é a mesma, é verdade, mas ainda assim não é algo que se despreze, já que no lugar de Laughner (falecido em 1977), foi chamado o guitarrista Richard Lloyd (ex-Television) e o baterista Steve Mehlman - parceiro de David Thomas no seu Pere Ubu. Com o lançamento do álbum "Rocket Redux", a banda saiu em turnê, participou de alguns festivais europeus, e continuou tocando pelos Estados Unidos, cobrindo o circuito mais under do underground, em shows proibidos para menores de 18 anos.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

Soy un perdedor

Hitmaker da country music, ídolo de carreira meteórica e comportamento pessoal completamente desregrado. Hank Williams foi fulminante como o sofrimento que cantava em suas músicas. Ao contrário de se espelhar no bom-mocismo dos heróis do Velho Oeste dos filmes que marcaram sua adolescência, ele personificou o primeiro loser do gênero, o que o aproxima bastante do rock’n’roll, que viria a dominar o mercado americano logo após a sua morte trágica e precoce. Abonico R. Smith conta a história do mito, homenageado em um belo e tocante álbum-tributo.

Hank Williams cantava tragédias amorosas e desgraças pessoais em versos de acentuada melancolia.

Falar sobre Hank Williams significa falar sobre os maiores estilos musicais americanos da história, o country. E não é só isso. Williams também foi o maior artista proto-rock’n’roll que existiu anos antes deste gênero explosivo ser reconhecido publicamente como a grande ameaça à moral e os bons costumes da elite branca, conservadora e detentora do poder político-econômico dos Estados Unidos da primeira metade da década de 50. Por isso, ele é o objeto de homenagem de um dos primeiros grandes discos-tributos do século 21, Timeless (Lost Highway/FNM) .

Hiram King Williams nasceu no dia 17 de setembro de 1923, na cidade de Georgiana, estado do Alabama. Aos seis anos, ingressou no coro da igreja local, aprendendo a trabalhar com a capacidade vocal, o que viria a ser uma das marcas registradas de sua carreira. Com 13, venceu um concurso de jovens talentos, o que o aproximou daquela que viria a ser pelos próximos dez anos sua banda de apoio, o Drifting Cowboys.

Aquela foi uma época de ouro da country music. Estas canções tiveram origem nas baladas anglo-celtas trazidas pelos pioneiros da colonização do interior dos Estados Unidos (chamados appalachians). Conforme as fronteiras se expandiam rumo à costa oeste, novas referências (sobretudo o tango e a valsa, adquiridos através da cultura hispânica que subiu do México para o Texas e o sul da Califórnia. Os primeiros indícios de aumento de popularidade vieram a partir do uso destas músicas nos grandes musicais vaudeville, empreendidos por companhias que percorriam todo o país nas primeiras décadas do século 20. O rádio logo tirou proveito: a partir de 1925, as noites de sábado transformaram a cidade de Nashville, no Tenessee, na capital do estilo, quando um programa chamado Grand Ole Opry era transmitido ao vivo de um teatro, revelando calouros e estrelas como Roy Acuff.

Não houve como segurar o estouro. Os trinta milhões de ouvintes conquistados rapidamente fizeram Hollywood perceber a mina de ouro. Com o advento das produções sonoras, diversos longa-metragens vieram a ser produzidos. Atores/cantores como Gene Autry e Roy Rogers se tornaram ídolos nacionais enquanto as platéias se encantavam com o mito dos heróis do Velho Oeste.

O jovem Williams cresceu e começou sua carreira artística em meio a todo este furacão promovido pelo rádio e pelo cinema. Até que resolveu trocar a companhia dos Drifting Cowboys pela busca do sonho dourado. Desembarcou em Nashville com 23 anos, para tentar a sorte no centro de ebulição da country music. Não tardou muito para conseguir um contrato para lançar discos pelo selo da MGM e fazer apresentações regulares em teatros da cidade. Até que chegou ao Grand Ole Opry em 1949, ano em que a parceria com seu produtor, Fred Rose, desencadeou uma invejável série de hits – registrados por Williams ou regravados por estrelas ascendentes de então. “Lovesick Blues”, “You’re Gonna Change”, “Long Come Lonesome Blues”, “Cold Cold Heart”, “Jambalaya”, “Hey Good Lookin’”, “Honk Tonk Blues”, “Your Cheatin’ Heart”, “Move It On Over”, “Mind Your Own Business”, “My Buckets Got A Hole In It”, “Why Don’t You Love Me”, “Why Should We Try Anymore”, “Crazy Love”, “Baby We’re Really In Love”, “Settin’ The Woods On Fire”, “Wedding Bells” e “Half As Much” foram alguns dos sucessos.

Contudo, Hank Williams estava longe de personificar a bravura e o bom-mocismo dos heróis do Velho Oeste de sua adolescência. Ele era, na verdade, o primeiro loser do gênero. Cantava os excessos, desgraças e tragédias e ainda vivia da mesma forma fora dos palcos e estúdios. Apesar da enorme popularidade, o comportamento errático e completamente desregrado pôs a ruir rapidamente tudo o que havia conquistado em menos de três anos. Em agosto de 1952, o alcoolismo levou-o a ser demitido do Grand Ole Opry. Pouco tempo depois, sua esposa Audrey Shepherd pediu o divórcio.

Hank, ainda assim, não se afastou do excesso de bebidas, drogas e mulheres. No dia 1º de janeiro de 1953, enquanto um motorista o levava para uma apresentação em Canton, em Ohio, Williams adormeceu no banco traseiro do carro. Teve um ataque fulminante do coração. Morreu com 29 anos, deixando um filho de três anos (Hank Williams Jr, que seguiria, sob o apelido de Bocephus, carreira de sucesso como cantor e compositor country) e um último hit com o premonitório nome de “I’ll Never Get Out Of This World Alive”.

Doze de suas clássicas composições foram agora regravadas em Timeless, por seis gerações de discípulos confessos. Os participantes são Johnny Cash, Keb’ Mo’, Bob Dylan, Keith Richards, Mark Knopfler, Tom Petty, Sheryl Crow, Lucinda Williams, Emmylou Harris, Beck e Ryan Adams – muitos destes nomes possuem suprema importância na evolução e história do rock’n’roll e são típicos representantes do cruzamento entre o rock e o country (em sua forma mais tradicional ou na vertente folk, mais próxima das origens das canções européias trazidas pelos colonos ). E, claro, o DNA não podia faltar – a família Williams vem representada pelo jovem neto, Hank III.

Dylan abre o álbum com uma composição pré-Ole Opry. O bluegrass “I Can’t Get You Off My Mind” traz uma desilusão amorosa escancarada por Williams (e nesta gravação ressaltada pela voz mais-que-anasalada do intérprete) em quinze versos diretos e altamente poéticos como “You believe that a true love is blind/ So you fool every new love you find/ You’ve got stars in your eyes/ But they can’t hide the lies/ Oh, I can’t get you off of my mind” (“Você acredita que o verdedeiro amor é cego/ Então você tapeia todo novo amor que encontra/ Você possui estrelas nos seus olhos/ Mas elas não podem esconder as mentiras/ Oh, não consigo tirar você do meu pensamento”).

Sheryl Crow vem em seguida optando por uma arranjo mais tradicional em “Long Gone Lonesome Blues”. Peca apenas pela falta de ousadia, afinal poderia ter explorado mais a tragicômica melancolia pós-chute-na-bunda de versos como “I went down to the river to watch the fish swim by/ But I got to the river so lonesome I wanted to die/ Oh, and then I jumped in the river/ But the doggone river was dry” – “Desci até o rio para observar os peixes nadando/ Mas eu cheguei lá tão abandonado que eu queria morrer/ Oh, e então eu pulei no rio/ Mas o maldito rio estava seco). Mas a moça acaba brilhando na hora do vocal yodel (aquela tremidinha entre graves e agudos que dói no ouvido).

Em “You’re Gonna Change (Or I’m Gonna Leave)” Tom Petty segue Sheryl Crow e também opta pelas eletrificações estridentes do new country americano dos anos 80 – exemplar este que acabou sendo importado pelos sertanejos brasileiros e hoje sobrevive nas arenas de rodeios em Barretos e diversas outras cidades interioranas de estados como São Paulo e Paraná.

Keb’ Mo’ puxa a balada valseada “I’m So lonesome I Could Cry” para o blues (com direito a steel guitar e solo de violino). Logo depois, Beck resgata a veia criativa esquecida nos tempos anteriores ao estouro de “Loser”. Enche de barulhinhos, ruídos e timbres graves a baladaça “Your Cheatin’ Heart” e por quase quatro minutos ressuscita aquele cara legal que sabia fazer barbaridades com um violão em punho pelas ruas de Los Angeles.

Quem também surpreende é Keith Richards. Ás da guitarra, ele deixa de lado a habilidade em seu instrumento para brilhar como vocalista em “You Win Again” – mais uma composição em três por quatro e que neste disco ganhou arranjo levemente direcionado ao soul. Richards transpõe para a interpretação todo o sofrimento de versos como “Just trusting you was my great sin/ What can I do, you win again” (“Ter acreditado em você foi o meu grande pecado/ O que posso fazer se você ganha novamente”).

Ryan Adams, expoente da recente safra alt-country, pega o filé mignon “Lovesick Blues”, o maior hit deixado por Williams. Aposta na simplicidade, sua marca registrada. Emociona com vocal yodel e acompanhamento de violão e rabeca. E ainda abre o caminho para a faixa seguinte, “Cold Cold Heart”. A tristeza sem fim também parece tomar conta de Lucinda Williams, que acentua a letra deprê-total com fundo tecido por violinos ao fundo e solo de dobro.

Emmylou Harris e Mark Knopfler fazem dobradinha discreta nos compassos ternários de “Lost On The River” e “Alone And Forsaken” – ambas tendo como destaque do choroso bandolim tocado por Mike Henderson. Já Hank III, descendente da lenda, é mais corajoso ao mostrar o quanto vovô era rock’n’roll. “I’m A Long Gone Daddy” era puro rockabilly de baixo-de-pau, antes mesmo do próprio existir através de Bill Haley, Gene Vincent e Eddie Cochrane. Os versos também podem ser entendidos como um recado familiar (“I’m leavin’ now, I’m leavin’ now/ I’m a long gone daddy/ I don’t need you anyhow” ‘”Estou indo embora, estou indo embora/ Já sou gente grande, papai/ Eu não preciso mais de você”).

Pioneiro da mistura entre country e rock’n’roll na gravadora Sun (que também revelou nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison na década de 50), Johnny Cash fecha o álbum recitando o amor de Williams por sua mãe e as lembranças da infância voltando à mente através de um sonho. A música é a grande declaração de amor que Williams nunca conseguiu fazer para suas mulheres em suas composições. Belo e tocante, um ótimo encerramento para homenagear aquele que sofreu tanto em cima dos palcos. E fora deles também.